VI Jornadas da Universidade do Minho

27-2-2026

VI Jornadas da Universidade do Minho

Pedro Barreiros defende valorização urgente da profissão docente nas VI Jornadas da Universidade do Minho

A Universidade do Minho acolheu, no dia 27 de fevereiro de 2026, as VI Jornadas sobre Currículo, Avaliação e Profissão Docente, uma iniciativa coordenada pela Professora Maria Assunção Flores, e dinamizada pelos estudantes do 1.º ano dos Mestrados em Ensino. O encontro reuniu investigadores, docentes, dirigentes escolares e sindicais para refletir sobre os desafios curriculares que hoje se colocam à escola, num contexto de crescente complexidade social, cultural e tecnológica. Entre os convidados estiveram o Professor Emérito Licínio Lima, a Professora Isabel Viana, a Professora Amélia Lopes, a Professora Palmira Alves, a Professora Carmen Cavaco, o Presidente da ADMEE-Europa, Christophe Grémion, e o Secretário-Geral da Federação Nacional da Educação (FNE), Pedro Barreiros.


“O futuro da profissão está aqui”

Na sua intervenção, Pedro Barreiros dirigiu-se de forma particularmente próxima aos estudantes que iniciam agora o seu percurso profissional, sublinhando que falar do futuro da profissão docente “não é um exercício abstrato”, mas uma reflexão concreta sobre as escolhas, expectativas e desafios daqueles que em breve estarão nas escolas. Reconhecendo que ensinar sempre foi uma tarefa exigente, o dirigente sindical destacou que a profissão vive hoje um grau de complexidade sem precedentes: à dimensão científica e pedagógica somam-se responsabilidades sociais, emocionais e tecnológicas. O professor é chamado a integrar o digital e a inteligência artificial, a promover inclusão, a gerir conflitos e a educar para o pensamento crítico num mundo saturado de informação. Contudo, alertou, este aumento de exigência nem sempre tem sido acompanhado por reconhecimento, estabilidade e condições de trabalho adequadas.


Revisão do Estatuto: momento decisivo

Um dos eixos centrais da intervenção incidiu sobre a revisão do Estatuto da Carreira Docente, que a FNE considera um momento “absolutamente decisivo” para o futuro da escola pública.

Pedro Barreiros identificou como prioridades centrais a eliminação de bloqueios artificiais na progressão da carreira e a valorização integral do tempo de serviço, defendendo que uma profissão exigente e altamente qualificada não pode continuar marcada por entraves administrativos geradores de frustração. Sublinhou ainda a necessidade de criar mecanismos de recrutamento e vinculação mais justos, céleres e transparentes, que assegurem estabilidade aos docentes e às escolas. Por fim, destacou a urgência de melhorar de forma efetiva as condições de exercício da profissão, nomeadamente através da redução da sobrecarga burocrática, libertando tempo para o que é essencial: ensinar e acompanhar os alunos com qualidade.

Para a FNE, rever o Estatuto não é apenas uma questão administrativa, mas uma oportunidade histórica para reafirmar a centralidade da profissão docente numa sociedade democrática e qualificada.

 
Um desafio estrutural: 38 mil novos professores até 2034

A intervenção integrou ainda dados do estudo sobre necessidades docentes para a próxima década, que apontam para um cenário particularmente exigente: cerca de 37% dos docentes atualmente em funções deverão aposentar-se até 2034/35, sendo necessários aproximadamente 38 mil novos professores, numa média anual de 3 800 entradas no sistema.

O envelhecimento acentuado da classe docente e a insuficiente renovação geracional colocam riscos sérios à estabilidade das escolas e à equidade territorial. Sem medidas estruturais, advertiu, poderão agravar-se a falta de professores em determinadas regiões e grupos disciplinares, a precariedade contratual e a sobrecarga dos docentes no ativo.

Perante este cenário, a FNE defende uma estratégia assente na valorização efetiva da carreira, no reforço da atratividade da profissão, na expansão da formação inicial, em políticas de fixação em zonas carenciadas e num planeamento plurianual rigoroso das necessidades.


Sindicalismo como construção coletiva

Num registo simultaneamente institucional e mobilizador, o Secretário-Geral da FNE salientou que o sindicalismo docente não se esgota na reivindicação, sendo também uma força propositiva e construtiva. Recordou conquistas recentes, como a recolocação da recuperação do tempo de serviço no centro da agenda política e a defesa de modelos de avaliação mais equilibrados.

Dirigindo-se diretamente aos futuros professores, deixou um apelo à participação e ao envolvimento cívico e profissional: a profissão não pode ser vivida como um ato individual e solitário, mas como uma construção coletiva.


Um ato de coragem e de esperança

A encerrar, Pedro Barreiros afirmou que escolher ser professor hoje é “um ato de coragem”, mas também de profunda esperança na capacidade transformadora da educação. Num tempo de aceleração tecnológica, reiterou que nenhuma inteligência artificial substitui a relação humana que se constrói na sala de aula.

As VI Jornadas da Universidade do Minho ficaram assim marcadas por uma reflexão exigente e plural sobre currículo, avaliação e profissão docente, reforçando a ideia de que o futuro da escola pública depende, em larga medida, das condições, da motivação e do reconhecimento daqueles que nela ensinam.

No final do painel, os intervenientes responderam às questões colocadas pelos participantes, num momento de diálogo aberto e particularmente enriquecedor. Foram abordados temas como o modelo de governança e de administração escolar e o seu impacto na qualidade das escolas, a necessidade de reconstruir a imagem social da profissão docente e as respostas estruturais à crescente falta de professores e às exigências de habilitação profissional, entre outros desafios atuais.

Este momento final reforçou o carácter reflexivo e participativo das Jornadas, evidenciando que o futuro da educação exige debate informado, compromisso coletivo e soluções sustentadas, capazes de articular políticas públicas, liderança escolar e valorização efetiva dos profissionais que todos os dias constroem a escola.


Braga, 27 de fevereiro de 2026